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março 15, 2008 / pneto

O que é a Justificação

O que é a justificação?

 

A teoria do conhecimento ou epistemologia é a disciplina filosófica que estuda a natureza, limites e possibilidade do conhecimento. Num certo sentido, toda a filosofia se divide entre metafísica, que estuda os aspectos mais gerais da realidade, e a epistemologia, que estuda os aspectos mais gerais do conhecimento. Afinal, é argumentável que nada há além da realidade e do nosso conhecimento da realidade.
Entre outras coisas, em epistemologia (não confundir com filosofia da ciência) estuda-se a noção de justificação e a sua relação com a verdade e o conhecimento. Mas o que é a justificação?

Intuitivamente e popularmente as pessoas tendem a ter uma concepção metafísica de justificação. Contudo, não é essa a concepção mais comum em epistemologia, nem sequer é claro que tal concepção não seja uma confusão entre verdade e justificação.

A questão torna-se mais clara se pensarmos deste modo: será possível ter justificação para aceitar uma crença falsa? Segundo a concepção metafísica da justificação, não é possível. Mas isto acontece apenas porque se entende justificação como uma garantia de verdade. Neste sentido, ter uma crença justificada implica a verdade da crença. Evidentemente, não é este o sentido de “justificação” usado na análise tripartida do conhecimento como crença verdadeira justificada — pois nesse caso a análise seria redundante: a verdade estaria a mais, pois a justificação já garantiria a verdade.

A concepção mais defensável, e a concepção associada à análise tripartida do conhecimento, é que um agente cognitivo está justificado em acreditar em algo quando está em jogo um qualquer processo fidedigno de formação de crenças verdadeiras. Mas um processo de formação de crenças pode ser fidedigno e no entanto dar origem a crenças falsas, em certas circunstâncias. E é nesses casos que o agente está justificado em acreditar em algo, apesar de a crença ser falsa.

Por exemplo, podemos dizer que Ptolomeu tinha uma crença justificada de que a Terra estava imóvel. O tipo de indícios que ele usava eram adequados para sustentar essa crença — mas teve azar porque tais indícios são ou enganadores ou insuficientes para estabelecer a verdade de tal crença. Posto de outro modo: Ptolomeu não cometeu qualquer “pecado” epistémico, não cometeu qualquer erro epistémico. Apenas estava numa circunstância infeliz. Desde que tenha analisado cuidadosamente os dados empíricos, tenha raciocinado sem cometer erros triviais e tenha procurado activamente dados contrários à sua crença de que a Terra está imóvel, Ptolomeu tinha justificação para aceitar a sua crença, apesar de esta ser falsa.

É aliás defensável que esta é a grande diferença entre os erros da ciência e os acertos da religião. As teorias erradas da ciência são crenças justificadas no contexto em que se pensa que são verdadeiras, ao passo que mesmo as crenças verdadeiras da religião são sempre injustificadas no contexto religioso porque os mecanismos de justificação de crenças usados pela religião (tradição e autoridade, visões místicas pessoais e vivenciais, insusceptíveis de testes independentes) nada justificam. Quando a ciência erra, não peca epistemicamente. Mas a religião, mesmo quando acerta na verdade por sorte, peca epistemicamente.

Distingue-se também habitualmente em filosofia a noção de estar justificado da noção de ser capaz de articular uma justificação. O exemplo típico é uma criança que está justificada em acreditar que há leite no frigorífico porque abriu o frigorífico e lhe pareceu ver leite numa garrafa. Mas é claro que uma criança não é capaz de articular uma justificação, que teria de incluir conhecimentos complexos de percepção visual. Contudo, mesmo sem ser capaz de articular tal justificação, está justificada.

Também é evidente que a crença da criança pode ser falsa — afinal, a mãe pode ter colocado um qualquer líquido branco na garrafa do leite, sem a criança saber. Se não aceitarmos que a crença da criança está justificada, é porque fazemos coincidir a justificação com a verdade, o que a generalidade dos filósofos recusaria, e o que tornaria a análise clássica do conhecimento redundante por definição.

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